/apidata/imgcache/f299af4f8c69f22c3baca83e7faec017.png?banner=header&when=1770103759&who=51
/apidata/imgcache/bfed0b5214e574753a58ecc1a4cdc4d1.png?banner=top&when=1770103759&who=51

A Guerra dos Afetos na Política Brasileira

Cientista Político Araré Carvalho analisa como afetos, redes sociais e a pós-verdade se tornaram armas centrais na política brasileira contemporânea, a partir do fenômeno Nicolas Ferreira.

Atualizado em 02/02/2026 às 11:02, por Prof. Dr. Araré Carvalho | Cientista Político.

Grupo de manifestantes em protesto ao ar livre levanta os punhos e grita palavras de ordem. Alguns usam camisetas com os dizeres “Justiça & Liberdade”, enquanto um manifestante ao centro veste uma camisa escrita “Acorda Brasil”. A cena transmite engajamento coletivo e mobilização política.

Manifestantes participam de ato político com palavras de ordem como “Justiça”, “Liberdade” e “Acorda Brasil”, em mobilização marcada por forte apelo emocional e simbólico. Foto: Reprodução/Instagram/@nikolasferreiradm

Ao afirmar, em Mil Platôs, que “os afetos atravessam o corpo como flechas, são armas de guerra”, Gilles Deleuze e Félix Guattari reconhecem que os sentimentos não são meros estados passivos. São, antes, intensidades, forças ativas que nos atravessam, nos transformam e nos mobilizam. Essa micropolítica dos encontros, na qual cada afeto carrega uma potência de transformação, revela-se uma ferramenta analítica precisa para decifrar a política contemporânea, especialmente a maneira como valores e pautas morais são acionados para galvanizar massas e alavancar carreiras.

O deputado por Minas Gerais, Nicolas Ferreira (PL-MG), emerge como um caso paradigmático dessa dinâmica. Ao convocar uma “Marcha pela Liberdade”, ele não estava apenas organizando um ato político, mas disparando uma flecha afetiva de grande potência. O termo “liberdade”, propositalmente vago, funciona como um vetor de identificação: cada indivíduo pode projetar nele suas próprias ansiedades e desejos, seja contra o “comunismo”, a “ideologia de gênero” ou supostas ameaças às instituições democráticas. A marcha, segundo ele, seria um “despertador” para o país. No entanto, o que importava não era para o que se despertaria, mas o próprio ato de despertar: uma convocação à ação e ao pertencimento, capaz de unir um grupo sob a égide de um afeto comum, apesar de sua indefinição prática.

É nesse contexto que a habilidade de Nicolas Ferreira nas redes sociais se torna decisiva. Ele não apenas “joga o jogo da internet”; domina sua gramática mais profunda. Nesse ambiente, a verdade factual torna-se um elemento secundário. O que prevalece é a ressonância. O conceito de pós-verdade encontra aqui seu palco ideal: uma notícia ou declaração não é validada por sua precisão, mas por sua capacidade de ecoar crenças pré-existentes e de atacar inimigos simbólicos. Se o conteúdo agrada e fere quem “nós” rejeitamos, ele se torna, por definição, “verdadeiro”. Seus vídeos virais não informam — afetam. Funcionam como munição em uma guerra simbólica travada ininterruptamente nos feeds de notícias.

Essa lógica torna sua atuação legislativa quase irrelevante para sua base eleitoral. Seus apoiadores não o avaliam prioritariamente por votos ou projetos, mas por sua performance como defensor de determinados valores. A dissonância cognitiva — o desconforto psicológico diante de contradições — é neutralizada pela força do afeto. Quando afirma que “falta testosterona aos homens” do país, apesar de sua própria aparência juvenil e imberbe, a incoerência não gera crise. A mensagem, como uma flecha, atinge seu alvo: o sentimento difuso de uma masculinidade supostamente ameaçada que precisa ser reafirmada. A consistência do mensageiro é sacrificada em favor da eficácia da mensagem.

Nicolas Ferreira, contudo, não incomoda apenas a esquerda, por sua eficácia comunicativa, mas também setores da direita e a própria família Bolsonaro. Ele desponta como uma figura capaz de catalisar e, potencialmente, redirecionar a energia desse eleitorado. Sua posição é estrategicamente privilegiada: ainda percebido como um político bolsonarista, beneficia-se de seu capital político enquanto constrói uma marca própria, autônoma, com um engajamento digital que já rivaliza — e por vezes supera — o dos próprios Bolsonaros. Uma ruptura aberta contra ele seria arriscada, pois poderia fragmentar a base que ambos disputam. Enquanto isso, Nicolas segue capitalizando, transformando cada polêmica em mais combustível para sua ascensão.

O fenômeno Nicolas Ferreira, iluminado pela lente de Gilles Deleuze e Félix Guattari, sinaliza uma transformação inquietante no jogo político contemporâneo. A vitória já não pertence, necessariamente, a quem apresenta o melhor projeto ou o discurso mais racional, mas a quem maneja com maior destreza as armas afetivas. Basta lembrar a declaração da mulher atingida por um raio durante uma manifestação organizada por Nicolas Ferreira. 

Não tenho arrependimento, de maneira alguma. Participei de uma luta por justiça. Mesmo que nós tivéssemos morrido, estaria tudo bem.

afirmou a mulher



Esse tipo de ‘fala’ revela até que ponto a política vem se convertendo, cada vez mais, de um espaço de deliberação em um campo de batalha de intensidades, no qual a lealdade é conquistada não pela razão, mas pelo impacto emocional. 

O desafio imposto à democracia é evidente: como sustentar a centralidade dos fatos, das políticas públicas e do debate racional quando o adversário triunfa ao acionar as fibras mais profundas do medo, da raiva e da esperança de seu exército digital? A guerra dos afetos está declarada e suas consequências moldarão o futuro do espaço público no Brasil.